quarta-feira, 10 de março de 2010

Uma aprendizagem ou O livro dos Prazeres - Clarice Lispector

Essa semana terminei de ler um livro fascinante de Lispector que assim como seu título ele é uma verdadeira aprendizagem. Não só para Lóri, personagem principal, mas também para nós leitores, que todos os dias estamos vivendo e aprendendo a viver. Prestem atenção neste fragmento do livro, este trecho é uma verdadeira reflexão de nós mesmos.

(...) Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso consideramos vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos.Temos amotoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos contruído catedrais e ficando do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos contruimos, tememos que sejam armadilha. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma garfe. Não temos adorado por temos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficárssemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temos-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste."

Eu também! Assim como Ulisses eu também escapei e escapo todos os dias. Porque sem se libertar disso tudo não saberemos o que é amar, o que é viver, não saberemos o que é liberdade, não saberemos o que é SER HUMANO, ter um coração e alma humana.

Um comentário:

  1. Adorei, Larissa. Isso é certo, realmente. Clarice como sempre com essa hiper-sensibilidade...

    Bjoos! Sucesso!

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